O problema com a filha da Tel mudou muitas coisas em nossa vida. Porque a partir daquele dia passaram as duas naquele apartamento a viver uma situação bizarra. A Júlia não falava com a mamãe. A mamãe só falava com a Tel e a Tel falava com as duas e quando elas estavam juntas a coitada não sabia pra que lado se virar. Era para rir se não fosse trágico e a mamãe não estava com nenhuma vontade de rir. Pior, a Tel não interferia. Mamãe teria sentado com sua filha e conversado. Teria colocado as duas frente e frente. A mamãe demorou muito para entender e aceitar essa posição da Tel. A Julia tomou decididamente o partido dos Loy e até o Natal ela passava (e ainda passa) com eles onde a mãe dela não era (e não é ainda) convidada. Ela poderia ter ajudado no processo de aceitação da família Loy, mas a atitude dela só fez piorar as coisas. O meu irmãozinho já tinha sido adotado e o comportamento da Julia com a mamãe era péssimo embora ela tivesse aceitado e até gostado do seu novo irmão. Também que a Júlia em casa não fazia absolutamente nada. Não enxugava uma louça, não estendia uma cama, não arrumava coisa alguma nem mesmo seus próprios livros ou roupas. A mamãe não queria isso para o meu irmãozinho. Como explicar a ele que ela tinha privilégios que ele não teria ? Mamãe queria criar a gente como tinha criado os outros: com deveres cumpridos significando direitos adquiridos. Essa filosofia sempre foi muito importante na educação da mamãe. Isso não quer dizer que os filhos da mamãe sejam melhores que a filha da Tel. A outra coisa que fez com que a mamãe resolvesse sair de São Paulo foi o comportamento do meu irmão Chris. Aliás, ele é só três dias mais velho que a Júlia. Fazia somente um mês que a mamãe tinha adotado o Fe quando ela descobriu que o Chris estava fumando maconha e possivelmente experimentando algo mais. Foi um choque tão grande quanto cair do décimo andar. Mamãe, que tinha filhos excepcionais, filhos portadores do HIV, filhos negros, estava preparada para todas as circunstâncias ligadas a estas condições, inclusive as piores. Mas ter um filho viciado em drogas... mamãe não tinha se preparado para isso. Foi terrível. Mamãe diz que foram os piores dias de sua vida. Ela não sabia o que fazer. Começou procurando na Internet tratamento para ele, mas tudo era muito caro, envolvia internação e ela sabia que o meu irmão não ia aceitar uma coisa dessas. Ele estava muito estranho, revoltado, não falava coisa com coisa. Eles tinham sido sempre muito ligados. Na verdade sempre se fala em família que o Chris é o filho preferido da mamãe. Isso não é verdade, mas ela o amava e o ama muito ainda. Foram meses de terrível tribulação. Sem poder fazer nada ou muito pouco (a mamãe o arrastava para as reuniões na Igreja Renascer, aquela que desabou. Muito embora não compactue com as idéias de seus fundadores, ela tem de admitir que o grupo de ex-drogados lá é um grupo maravilhoso). Mamãe olhava para o meu irmãozinho que não tinha 1 aninho ainda com muita tristeza e pensava você vai fazer isso comigo também? Foram meses muito difíceis. Mamãe estava em crise, inclusive em crise religiosa, pois não conseguia aceitar que o seu filho, educado dentro do evangelho toda sua vida, estivesse agora vivendo aquela realidade. Na igreja eles diziam que a culpa de tudo era dela. Ela quase se separou da Tel por causa disso. Foi uma fase muito triste, mas graças a Deus uma fase curta.
Chris e Júlia eram duas realidades opostas, difíceis de aceitar, e tudo isso foi tornando a vida da mãe uma coisa tão insuportável que ela queria ir embora dali de qualquer maneira. Foi aí que a idéia de sair de São Paulo mesmo definitivamente formou-se em sua cabeça. Depois de ter adotado meu irmãozinho, a Tel passou a querer mais uma filhinha. Mamãe concordou porque a Tel tinha aceitado a idéia do meu irmão e também porque era um mais para quem já tinha 8 . A coisa estava virando pro meu lado, graças a Deus! Mas a mamãe dizia para a Tel - Não vou criar mais um filho neste apartamento. Foi aí que uma amiga da Tel começou a teclar com uma mulher pela Internet e queria conhecê-la pessoalmente. Esta mulher vivia na cidadezinha onde hoje nós vivemos e que na época a mamãe e a Tel não conheciam, sequer tinham ouvido falar nela. Elas vieram trazer esta amiga para conhecer a tal pessoa e ao chegarem aqui, olhando a paisagem magnífica, a natureza sem par desta região, mamãe disse: - é aqui. Novamente sob o olhar espantado da Tel o rolo compressor começou a tomar suas providências. A primeira delas foi alugar uma casinha de um dormitório na cidade. A mamãe tinha um apartamento que ela comprara e montara perto do apartamento da tia-ex que ela pôs a venda. O intuito ao comprá-lo fora ficar mais perto dos seus filhos, passar horas ao lado deles. A Tel ia todos os dias trabalhar na marcenaria do tio Re em Guarulhos. A mamãe ia para o apartamento e ficava esperando as crianças, dava aulas de inglês, reforço escolar, preparava jantares e lanches, tentava viver com eles uma vida familiar à parte. Levava com ela o meu irmãozinho bebê e a vida dela era assim. Também era uma maneira de não estar topando o dia inteiro com a Júlia. É muito desagradável conviver com uma pessoa que não fala com a gente. Não deu certo porque os meninos achavam chato ter que ir lá todo dia. Não queriam estudar e não havia lá as diversões que eles queriam. Depois de ter ponderado tudo o que aconteceu entre elas, e finalmente aceitado, após anos iguais, que a Júlia nunca mais seria a menina que fora um dia e que a Tel jamais interferiria no caso como nunca interferiu mesmo e que as coisas não iriam mudar, e que estar em São Paulo ou não parecia não fazer qualquer diferença na vida dos filhos que viviam com a tia-ex, a mamãe tomou a decisão de partir. Houve cenas hilárias. Uma vez a mamãe, chegando da rua, encontrou-se na porta do elevador com a Julia. O elevador chegou, a mamãe abriu a porta, ela e a Júlia entraram, mamãe apertou o botão do andar, as duas permaneceram lado a lado sem se olhar e sem se falar, mamãe abriu a porta do elevador, ela saiu, a Julia saiu atrás, a mamãe abriu a porta do apartamento e elas entraram, como se fossem um espírito encarnado e outro desencarnado. Cara feia de enteada, filho drogado, igreja dizendo que tudo era culpa dela, depressão, depressão, depressão...um inocentinho esperando pelo amor de mãe. Chega!! Mamãe vai virar essa mesa. English version will follow.
Chris e Júlia eram duas realidades opostas, difíceis de aceitar, e tudo isso foi tornando a vida da mãe uma coisa tão insuportável que ela queria ir embora dali de qualquer maneira. Foi aí que a idéia de sair de São Paulo mesmo definitivamente formou-se em sua cabeça. Depois de ter adotado meu irmãozinho, a Tel passou a querer mais uma filhinha. Mamãe concordou porque a Tel tinha aceitado a idéia do meu irmão e também porque era um mais para quem já tinha 8 . A coisa estava virando pro meu lado, graças a Deus! Mas a mamãe dizia para a Tel - Não vou criar mais um filho neste apartamento. Foi aí que uma amiga da Tel começou a teclar com uma mulher pela Internet e queria conhecê-la pessoalmente. Esta mulher vivia na cidadezinha onde hoje nós vivemos e que na época a mamãe e a Tel não conheciam, sequer tinham ouvido falar nela. Elas vieram trazer esta amiga para conhecer a tal pessoa e ao chegarem aqui, olhando a paisagem magnífica, a natureza sem par desta região, mamãe disse: - é aqui. Novamente sob o olhar espantado da Tel o rolo compressor começou a tomar suas providências. A primeira delas foi alugar uma casinha de um dormitório na cidade. A mamãe tinha um apartamento que ela comprara e montara perto do apartamento da tia-ex que ela pôs a venda. O intuito ao comprá-lo fora ficar mais perto dos seus filhos, passar horas ao lado deles. A Tel ia todos os dias trabalhar na marcenaria do tio Re em Guarulhos. A mamãe ia para o apartamento e ficava esperando as crianças, dava aulas de inglês, reforço escolar, preparava jantares e lanches, tentava viver com eles uma vida familiar à parte. Levava com ela o meu irmãozinho bebê e a vida dela era assim. Também era uma maneira de não estar topando o dia inteiro com a Júlia. É muito desagradável conviver com uma pessoa que não fala com a gente. Não deu certo porque os meninos achavam chato ter que ir lá todo dia. Não queriam estudar e não havia lá as diversões que eles queriam. Depois de ter ponderado tudo o que aconteceu entre elas, e finalmente aceitado, após anos iguais, que a Júlia nunca mais seria a menina que fora um dia e que a Tel jamais interferiria no caso como nunca interferiu mesmo e que as coisas não iriam mudar, e que estar em São Paulo ou não parecia não fazer qualquer diferença na vida dos filhos que viviam com a tia-ex, a mamãe tomou a decisão de partir. Houve cenas hilárias. Uma vez a mamãe, chegando da rua, encontrou-se na porta do elevador com a Julia. O elevador chegou, a mamãe abriu a porta, ela e a Júlia entraram, mamãe apertou o botão do andar, as duas permaneceram lado a lado sem se olhar e sem se falar, mamãe abriu a porta do elevador, ela saiu, a Julia saiu atrás, a mamãe abriu a porta do apartamento e elas entraram, como se fossem um espírito encarnado e outro desencarnado. Cara feia de enteada, filho drogado, igreja dizendo que tudo era culpa dela, depressão, depressão, depressão...um inocentinho esperando pelo amor de mãe. Chega!! Mamãe vai virar essa mesa. English version will follow.
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