domingo, 15 de fevereiro de 2009
Um dia típico na chácara
Imagino que as pessoas imaginam. Por que elas imaginam. Pelo menos é isso que a mamãe diz. Especialmente as pessoas heterossexuais têm muita curiosidade de saber como vive uma família gay.
Então eu vou contar. Moramos numa chácara porque gostamos de estar perto da Natureza. A mamãe é o tipo que curte amassar pão, colher frutas no pomar para fazer geléia. Não que ela faça isso todo dia porque ela trabalha como tradutora e fica todas as tardes no computador. Mas vamos começar do começo. Geralmente aqui em casa quem acorda primeiro é a Tel. Ela vai para o computador ajudar a mãe com algum trabalho urgente ou vai para a marcenaria. Ela é a artista da casa. Em tudo que ela faz tem sempre arte. Vou colocar uma foto de um trabalho feito por ela. Vocês vão concordar comigo. Tudo que ela faz é bem feitinho. Como a mamãe geralmente dorme tarde ela deixa a mamãe dormir mais um pouco e cuida de mim e do meu irmão. Duas mamadeiras, uma troca de fralda e os meus remédios. Aliás, são os meus remédios que dividem o dia por aqui. Viram como sou importante? Tenho um vírus que precisa ser controlado. Quando ele está sob controle eu posso ter uma vida normal. Mas eu também tenho uma pequena lesão cerebral e estou um pouco atrasada em relação às crianças da minha idade. Quando mamãe descobriu, ela foi pesquisar sobre o assunto e acabou viajando comigo ao Rio de Janeiro. Estou seguindo o tratamento dos Institutos Véras e agora já comecei a andar!!!
Mamãe é acordada com café na cama...todo dia!!!A Tel adora fazer isso e são minutos em que as duas se curtem. O Fe às vezes pula na cama delas para brincar, mas eu não sei sair do berço sozinha. Se eu já estou acordada aí vou bagunçar lá também.
De manhã a mamãe faz exercícios comigo, a Tel prepara o almoço. Temos aqui também a Lu, mais que empregada um anjo do céu que Deus mandou pra nos ajudar. A Tel vai pra marcenaria e o Fe fica reinando.
Almoçamos, eu vou pra minha sesta e o Fe pra escola. Mamãe vai pro computador e a Tel, se não sai pra fazer compras, está na marcenaria.
Não temos TV aqui. Só o aparelho que é usado pra gente ver filmes infantis com o DVD. Minhas mães não gostam da TV e nunca tivemos por isso não sentimos falta.
Eu durmo até umas 3 da tarde. Acordo e mamãe pega nos exercícios comigo outra vez. É cansativo pra nós duas então às vezes a gente cabula as aulas. Este domingo foi light. A mamãe até aproveitou pra tirar uma soneca na rede lá fora.
O Fe volta da escola, a gente lancha. Mamãe é adepta de coisas leves à tarde. Comemos coisas boas, pizza, pipoca, frutas, pão feito em casa, bolo com leite, frutas secas. Tomamos banho. Às 8 horas eu vou pra cama e a mamãe, a Telma e o Fe, já devidamente banhado e pijamado, rezam na sala antes de dormir. Mamãe conta uma historinha do evangelho com ajuda de gravuras, o Fe reza o anjinho da guarda. Ele vai pra cama com muita relutância. Mas vai porque a mamãe não é bolinho frito. Ela é severa e firme. A Tel é só bondade.
De noite minhas mães lêem. Lê-se muito nesta casa. Nós crianças temos uma estante de 5 prateleiras recheada de livros.
Elas têm mais de 1000 livros aqui. Compram livros toda semana no sebo on-line. Geralmente a Tel dorme em cima do livro e a mamãe carinhosamente retira os óculos dela e a acomoda melhor na cama. Na maior parte dos dias. Mas têm outros que terminam diferente. Estes não tenho permissão de contar. Sou muito novinha ainda. (Risos). Mas garanto a vocês que não é diferente de nenhum casal que se ama muito.
Então eu vou contar. Moramos numa chácara porque gostamos de estar perto da Natureza. A mamãe é o tipo que curte amassar pão, colher frutas no pomar para fazer geléia. Não que ela faça isso todo dia porque ela trabalha como tradutora e fica todas as tardes no computador. Mas vamos começar do começo. Geralmente aqui em casa quem acorda primeiro é a Tel. Ela vai para o computador ajudar a mãe com algum trabalho urgente ou vai para a marcenaria. Ela é a artista da casa. Em tudo que ela faz tem sempre arte. Vou colocar uma foto de um trabalho feito por ela. Vocês vão concordar comigo. Tudo que ela faz é bem feitinho. Como a mamãe geralmente dorme tarde ela deixa a mamãe dormir mais um pouco e cuida de mim e do meu irmão. Duas mamadeiras, uma troca de fralda e os meus remédios. Aliás, são os meus remédios que dividem o dia por aqui. Viram como sou importante? Tenho um vírus que precisa ser controlado. Quando ele está sob controle eu posso ter uma vida normal. Mas eu também tenho uma pequena lesão cerebral e estou um pouco atrasada em relação às crianças da minha idade. Quando mamãe descobriu, ela foi pesquisar sobre o assunto e acabou viajando comigo ao Rio de Janeiro. Estou seguindo o tratamento dos Institutos Véras e agora já comecei a andar!!!
Mamãe é acordada com café na cama...todo dia!!!A Tel adora fazer isso e são minutos em que as duas se curtem. O Fe às vezes pula na cama delas para brincar, mas eu não sei sair do berço sozinha. Se eu já estou acordada aí vou bagunçar lá também.
De manhã a mamãe faz exercícios comigo, a Tel prepara o almoço. Temos aqui também a Lu, mais que empregada um anjo do céu que Deus mandou pra nos ajudar. A Tel vai pra marcenaria e o Fe fica reinando.
Almoçamos, eu vou pra minha sesta e o Fe pra escola. Mamãe vai pro computador e a Tel, se não sai pra fazer compras, está na marcenaria.
Não temos TV aqui. Só o aparelho que é usado pra gente ver filmes infantis com o DVD. Minhas mães não gostam da TV e nunca tivemos por isso não sentimos falta.
Eu durmo até umas 3 da tarde. Acordo e mamãe pega nos exercícios comigo outra vez. É cansativo pra nós duas então às vezes a gente cabula as aulas. Este domingo foi light. A mamãe até aproveitou pra tirar uma soneca na rede lá fora.
O Fe volta da escola, a gente lancha. Mamãe é adepta de coisas leves à tarde. Comemos coisas boas, pizza, pipoca, frutas, pão feito em casa, bolo com leite, frutas secas. Tomamos banho. Às 8 horas eu vou pra cama e a mamãe, a Telma e o Fe, já devidamente banhado e pijamado, rezam na sala antes de dormir. Mamãe conta uma historinha do evangelho com ajuda de gravuras, o Fe reza o anjinho da guarda. Ele vai pra cama com muita relutância. Mas vai porque a mamãe não é bolinho frito. Ela é severa e firme. A Tel é só bondade.
De noite minhas mães lêem. Lê-se muito nesta casa. Nós crianças temos uma estante de 5 prateleiras recheada de livros.
Elas têm mais de 1000 livros aqui. Compram livros toda semana no sebo on-line. Geralmente a Tel dorme em cima do livro e a mamãe carinhosamente retira os óculos dela e a acomoda melhor na cama. Na maior parte dos dias. Mas têm outros que terminam diferente. Estes não tenho permissão de contar. Sou muito novinha ainda. (Risos). Mas garanto a vocês que não é diferente de nenhum casal que se ama muito.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Continuação de os meus, os seus, os nossos filhos
O problema com a filha da Tel mudou muitas coisas em nossa vida. Porque a partir daquele dia passaram as duas naquele apartamento a viver uma situação bizarra. A Júlia não falava com a mamãe. A mamãe só falava com a Tel e a Tel falava com as duas e quando elas estavam juntas a coitada não sabia pra que lado se virar. Era para rir se não fosse trágico e a mamãe não estava com nenhuma vontade de rir. Pior, a Tel não interferia. Mamãe teria sentado com sua filha e conversado. Teria colocado as duas frente e frente. A mamãe demorou muito para entender e aceitar essa posição da Tel. A Julia tomou decididamente o partido dos Loy e até o Natal ela passava (e ainda passa) com eles onde a mãe dela não era (e não é ainda) convidada. Ela poderia ter ajudado no processo de aceitação da família Loy, mas a atitude dela só fez piorar as coisas. O meu irmãozinho já tinha sido adotado e o comportamento da Julia com a mamãe era péssimo embora ela tivesse aceitado e até gostado do seu novo irmão. Também que a Júlia em casa não fazia absolutamente nada. Não enxugava uma louça, não estendia uma cama, não arrumava coisa alguma nem mesmo seus próprios livros ou roupas. A mamãe não queria isso para o meu irmãozinho. Como explicar a ele que ela tinha privilégios que ele não teria ? Mamãe queria criar a gente como tinha criado os outros: com deveres cumpridos significando direitos adquiridos. Essa filosofia sempre foi muito importante na educação da mamãe. Isso não quer dizer que os filhos da mamãe sejam melhores que a filha da Tel. A outra coisa que fez com que a mamãe resolvesse sair de São Paulo foi o comportamento do meu irmão Chris. Aliás, ele é só três dias mais velho que a Júlia. Fazia somente um mês que a mamãe tinha adotado o Fe quando ela descobriu que o Chris estava fumando maconha e possivelmente experimentando algo mais. Foi um choque tão grande quanto cair do décimo andar. Mamãe, que tinha filhos excepcionais, filhos portadores do HIV, filhos negros, estava preparada para todas as circunstâncias ligadas a estas condições, inclusive as piores. Mas ter um filho viciado em drogas... mamãe não tinha se preparado para isso. Foi terrível. Mamãe diz que foram os piores dias de sua vida. Ela não sabia o que fazer. Começou procurando na Internet tratamento para ele, mas tudo era muito caro, envolvia internação e ela sabia que o meu irmão não ia aceitar uma coisa dessas. Ele estava muito estranho, revoltado, não falava coisa com coisa. Eles tinham sido sempre muito ligados. Na verdade sempre se fala em família que o Chris é o filho preferido da mamãe. Isso não é verdade, mas ela o amava e o ama muito ainda. Foram meses de terrível tribulação. Sem poder fazer nada ou muito pouco (a mamãe o arrastava para as reuniões na Igreja Renascer, aquela que desabou. Muito embora não compactue com as idéias de seus fundadores, ela tem de admitir que o grupo de ex-drogados lá é um grupo maravilhoso). Mamãe olhava para o meu irmãozinho que não tinha 1 aninho ainda com muita tristeza e pensava você vai fazer isso comigo também? Foram meses muito difíceis. Mamãe estava em crise, inclusive em crise religiosa, pois não conseguia aceitar que o seu filho, educado dentro do evangelho toda sua vida, estivesse agora vivendo aquela realidade. Na igreja eles diziam que a culpa de tudo era dela. Ela quase se separou da Tel por causa disso. Foi uma fase muito triste, mas graças a Deus uma fase curta.
Chris e Júlia eram duas realidades opostas, difíceis de aceitar, e tudo isso foi tornando a vida da mãe uma coisa tão insuportável que ela queria ir embora dali de qualquer maneira. Foi aí que a idéia de sair de São Paulo mesmo definitivamente formou-se em sua cabeça. Depois de ter adotado meu irmãozinho, a Tel passou a querer mais uma filhinha. Mamãe concordou porque a Tel tinha aceitado a idéia do meu irmão e também porque era um mais para quem já tinha 8 . A coisa estava virando pro meu lado, graças a Deus! Mas a mamãe dizia para a Tel - Não vou criar mais um filho neste apartamento. Foi aí que uma amiga da Tel começou a teclar com uma mulher pela Internet e queria conhecê-la pessoalmente. Esta mulher vivia na cidadezinha onde hoje nós vivemos e que na época a mamãe e a Tel não conheciam, sequer tinham ouvido falar nela. Elas vieram trazer esta amiga para conhecer a tal pessoa e ao chegarem aqui, olhando a paisagem magnífica, a natureza sem par desta região, mamãe disse: - é aqui. Novamente sob o olhar espantado da Tel o rolo compressor começou a tomar suas providências. A primeira delas foi alugar uma casinha de um dormitório na cidade. A mamãe tinha um apartamento que ela comprara e montara perto do apartamento da tia-ex que ela pôs a venda. O intuito ao comprá-lo fora ficar mais perto dos seus filhos, passar horas ao lado deles. A Tel ia todos os dias trabalhar na marcenaria do tio Re em Guarulhos. A mamãe ia para o apartamento e ficava esperando as crianças, dava aulas de inglês, reforço escolar, preparava jantares e lanches, tentava viver com eles uma vida familiar à parte. Levava com ela o meu irmãozinho bebê e a vida dela era assim. Também era uma maneira de não estar topando o dia inteiro com a Júlia. É muito desagradável conviver com uma pessoa que não fala com a gente. Não deu certo porque os meninos achavam chato ter que ir lá todo dia. Não queriam estudar e não havia lá as diversões que eles queriam. Depois de ter ponderado tudo o que aconteceu entre elas, e finalmente aceitado, após anos iguais, que a Júlia nunca mais seria a menina que fora um dia e que a Tel jamais interferiria no caso como nunca interferiu mesmo e que as coisas não iriam mudar, e que estar em São Paulo ou não parecia não fazer qualquer diferença na vida dos filhos que viviam com a tia-ex, a mamãe tomou a decisão de partir. Houve cenas hilárias. Uma vez a mamãe, chegando da rua, encontrou-se na porta do elevador com a Julia. O elevador chegou, a mamãe abriu a porta, ela e a Júlia entraram, mamãe apertou o botão do andar, as duas permaneceram lado a lado sem se olhar e sem se falar, mamãe abriu a porta do elevador, ela saiu, a Julia saiu atrás, a mamãe abriu a porta do apartamento e elas entraram, como se fossem um espírito encarnado e outro desencarnado. Cara feia de enteada, filho drogado, igreja dizendo que tudo era culpa dela, depressão, depressão, depressão...um inocentinho esperando pelo amor de mãe. Chega!! Mamãe vai virar essa mesa. English version will follow.
Chris e Júlia eram duas realidades opostas, difíceis de aceitar, e tudo isso foi tornando a vida da mãe uma coisa tão insuportável que ela queria ir embora dali de qualquer maneira. Foi aí que a idéia de sair de São Paulo mesmo definitivamente formou-se em sua cabeça. Depois de ter adotado meu irmãozinho, a Tel passou a querer mais uma filhinha. Mamãe concordou porque a Tel tinha aceitado a idéia do meu irmão e também porque era um mais para quem já tinha 8 . A coisa estava virando pro meu lado, graças a Deus! Mas a mamãe dizia para a Tel - Não vou criar mais um filho neste apartamento. Foi aí que uma amiga da Tel começou a teclar com uma mulher pela Internet e queria conhecê-la pessoalmente. Esta mulher vivia na cidadezinha onde hoje nós vivemos e que na época a mamãe e a Tel não conheciam, sequer tinham ouvido falar nela. Elas vieram trazer esta amiga para conhecer a tal pessoa e ao chegarem aqui, olhando a paisagem magnífica, a natureza sem par desta região, mamãe disse: - é aqui. Novamente sob o olhar espantado da Tel o rolo compressor começou a tomar suas providências. A primeira delas foi alugar uma casinha de um dormitório na cidade. A mamãe tinha um apartamento que ela comprara e montara perto do apartamento da tia-ex que ela pôs a venda. O intuito ao comprá-lo fora ficar mais perto dos seus filhos, passar horas ao lado deles. A Tel ia todos os dias trabalhar na marcenaria do tio Re em Guarulhos. A mamãe ia para o apartamento e ficava esperando as crianças, dava aulas de inglês, reforço escolar, preparava jantares e lanches, tentava viver com eles uma vida familiar à parte. Levava com ela o meu irmãozinho bebê e a vida dela era assim. Também era uma maneira de não estar topando o dia inteiro com a Júlia. É muito desagradável conviver com uma pessoa que não fala com a gente. Não deu certo porque os meninos achavam chato ter que ir lá todo dia. Não queriam estudar e não havia lá as diversões que eles queriam. Depois de ter ponderado tudo o que aconteceu entre elas, e finalmente aceitado, após anos iguais, que a Júlia nunca mais seria a menina que fora um dia e que a Tel jamais interferiria no caso como nunca interferiu mesmo e que as coisas não iriam mudar, e que estar em São Paulo ou não parecia não fazer qualquer diferença na vida dos filhos que viviam com a tia-ex, a mamãe tomou a decisão de partir. Houve cenas hilárias. Uma vez a mamãe, chegando da rua, encontrou-se na porta do elevador com a Julia. O elevador chegou, a mamãe abriu a porta, ela e a Júlia entraram, mamãe apertou o botão do andar, as duas permaneceram lado a lado sem se olhar e sem se falar, mamãe abriu a porta do elevador, ela saiu, a Julia saiu atrás, a mamãe abriu a porta do apartamento e elas entraram, como se fossem um espírito encarnado e outro desencarnado. Cara feia de enteada, filho drogado, igreja dizendo que tudo era culpa dela, depressão, depressão, depressão...um inocentinho esperando pelo amor de mãe. Chega!! Mamãe vai virar essa mesa. English version will follow.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Os meus, os seus e os nossos
Eu e meu irmãozinho somos filhos da mamãe com a Tel, mas a mamãe teve um outro casamento antes e, como eu já contei, foram 7 os filhos que ela e a tia-ex criaram. A Tel também era casada com o tio-ex e teve a Julia. Se a gente contar todos somos em 10. É engraçado como as coisas se acumulam diz a mamãe, mas ao longo de trinta anos muita coisa acontece, chegam os filhos que nascem de nós, chegam os que a gente buscou, cada um com uma história e um momento e os filhos que a gente aceitou porque eram de alguém que a gente amava. A mamãe diz que muita gente sofre para administrar tudo isso e não é para menos. Acontece aos casais de homem com mulher também, então não é privilégio das mamãe com mamãe ou dos papai com papai. Para a mamãe, a separação do primeiro casamento foi muito sofrida, não pela separação em si porque ela já tinha percebido muitos anos antes que não havia amor e porque não foi ela quem tomou a iniciativa, mas esse amor tinha sido amplamente substituído pelo amor dos filhos e eles escolheram ficar com a tia-ex. Também não foi culpa deles. Os mais velhos eram filhos biológicos da tia. Os seguintes foram sendo adotados e como era a mamãe quem trabalhava e a tia-ex quem ficava em casa, embora eles tenham sido legalmente adotados pela mamãe, eles chamavam a tia-ex de mãe e para eles a mamãe era ela. Quando a mamãe adotou pela primeira vez foi uma menina que já veio com três anos de idade. Chegando a casa delas, a meninazinha, minha meia-irmã Né que hoje tem quase 29 anos, vendo que os dois mais velhos chamavam a tia-ex de mamãe, naquele mesmo dia também resolveu chamar ela assim. A mamãe aceitou porque como tirar de uma criança abandonada a mãe que ela mesma tinha acabado de escolher? Mas durante muitos anos, a mamãe se ressentia por nunca ter sido chamada de mãe. Mesmo porque era ela quem adotava e queria de fato adotar e era, digamos assim, o elemento feminino do casal. Isso acabou com a chegada do meu irmãozinho. Hoje são tantos mamãe, mamãe, mamãe o dia inteiro que ela gostaria de ganhar 50 centavos por cada um deles assim não precisaria mais trabalhar. Tudo que a gente quer a gente consegue em algum momento, mamãe sempre diz, por isso é preciso cuidado com que a gente pede porque a gente recebe. No ano em que a mamãe se separou ela conheceu a Tel que então terminou seu casamento com o tio-ex e ficou com a Júlia e a mamãe. A Júlia tinha só onze aninhos. A mamãe amou a Júlia. Na sua solidão, ela colocou a Júlia no lugar de todos os filhos que ela perdera, porque para a mamãe, ser mãe é estar presente, é olhar as lições de casa, é dizer boa-noite antes de dormir e isso ela não podia mais ter. Amava tanto a Júlia que se sentia culpada em relação aos outros. Porque a Júlia era a filha dos seus sonhos: uma menina linda, inteligente, estudiosa, tranqüila, tudo o que ela sonhara numa criança. E também porque a Julia adora ler, uma coisa que a mamãe ama de paixão e sempre ficou triste porque nenhum dos meus irmãos até agora parece gostar. Na cabeça da mamãe desfilam muitas cenas, cenas doces, verdadeiras cenas de mãe e filha. Nos primeiros anos foi um sonho. A Júlia vivia pendurada na mamãe. Todo mundo dizia que ela parecia mais filha da mamãe que da Tel. Iam assistir palestras no centro espírita e a menina ficava abraçada com ela. Mamãe se lembra de pentear os longos e lisos cabelos castanhos da Júlia. Se lembra de vagar pela cozinha tentando imaginar uma surpresa para a Júlia que ia chegar da escola. Se lembra de cartõezinhos enfeitados com canetinhas coloridas onde uma menina lhe dizia que a amava. Se lembra de saírem às compras, de tomarem lanche em mesinhas de cafés na calçada, se lembra de uma meninazinha dormindo em sua cama de casal entre ela e a Tel. Se lembra até mesmo de que a Tel às vezes tinha ciúmes das atenções que a mamãe dava à sua própria filha. Júlia sabia que elas eram um casal, achava tudo natural, riu mesmo quando soube do escândalo que a vovó Loy fez ao saber. Participou até da Parada Gay. Mas hoje, para a mamãe, essas lembranças são muito tristes. Porque, incompreensivelmente, passados dois anos destas doces cenas, certo dia, após voltar de uma viagem com seus avós e tios a Júlia voltou diferente. Elas tinham preparado um jantar especial para recebê-la, pois ela tinha passado 15 dias fora. À mesa, carinhosamente perguntada sobre as férias, respondia com monossílabos que acabaram tão malcriados que num raro momento da sua relação de mãe e filha com a Júlia, a Tel que nunca chama a atenção da filha, a repreendeu. Mamãe ficou chocada. Ficou muda e fez sinal à Tel para não continuar. Era o começo de um calvário que se estenderia por anos e faria a mamãe chorar muito e que ainda não acabou. No meu próximo post vou contar um pouco mais dessa estória porque eu acho que muita gente vai se sentir acompanhada (e talvez consolada) em seu sofrimento. English version will follow.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Adoção/Adoption
Mamãe e Tia Denise foram visitar duas casas de apoio que por coincidência ficavam na mesma rua num bairro afastado de São Paulo. Na primeira havia um garotinho de 11 meses que ela considerou para adoção. Mas era só a primeira visita. Havia outros lugares a visitar. Saindo dali as duas entraram na segunda casa. Lá, sentadinho num carrinho de bebê, numa sala onde se passava roupa, estava um menininho pálido de 6 meses de idade. Seus olhos eram tristes. Nesta primeira visita mamãe não o pegou no colo, mas estava definitivamente interessada nele. No entanto, ela e Tel queriam uma menina e então a mamãe achou que devia procurar mais. Mas quando a moça do orfanato disse a data de nascimento dele, mamãe ouviu os sininhos que ela sempre ouve quando algo tem a ver com ela: o garotinho aniversariava um dia antes da Tel! Mais um sagitariano (mamãe e Tel são sagitarianas). Era uma quarta feira. Mamãe ainda fez visitas na quinta e na sexta. Num orfanato ela achou dois menininhos recém nascidos (a Tel preferia um recém nascido). Mas debruçada sobre aqueles berços ela não sentia nada, nada como o que sentira pelo garotinho pálido e triste. Chegando em casa ela falou para a Tel que deveriam ir juntas conhecê-lo. Haveria vistas naquele domingo. Assim, ela, a Tel, a Tia Denise e o Tio Marcelo foram visitar o bebê. Desta vez, as duas pegaram o bebê no colo. Mamãe acompanhava com atenção as atitudes e o semblante da Tel. Tel é uma pessoa muito fechada justamente porque é muito emotiva. Mas a mamãe decifra ela muito bem. Aquele menininho já era filho da Tel. Faltava só a permissão para levá-lo embora. Tia Denise arranjou o advogado. Naquela semana entraram com o pedido de guarda. A mamãe e a Tel foram a um brechó e compraram um berço de madeira escura. Em algumas horas, o escritório do apartamento tinha virado um quarto de bebê e havia roupinhas, mamadeiras, e mil coisinhas esperando o menininho pálido. A Julia, filha da Tel, estava viajando em férias. Não sabia de nada ainda. Elas foram buscá-lo de noite. Tinham passado o dia atrás do Termo de Guarda que é o primeiro documento que a gente consegue numa adoção. Eram 9 horas da noite. Um dia frio de julho. Mamãe levou roupinhas, um conjunto de casaquinho e touca que ela tinha tricotado (aliás, tricotara vários enquanto esperava ficar grávida, o que ela escolheu está na foto deste post tirada ainda no orfanato). As outras criancinhas estavam acordadas. O meu irmãozinho, aquele menininho pálido acordou com a chegada delas. Enquanto mamãe o vestia, o advogado tirava fotos e a Tel sentada, vencida de emoções teve que ouvir frases muito tristes: - Você vai levar o nenê? Você me leva também? Como explicar a uma criança que ela não vai ter uma mamãe, que você só vai levar aquele ali? Por que não eu? A pergunta estava desenhada em cada rostinho, em cada olhar dolorido. A Tel jurou que nunca mais ia tirar uma criança do orfanato. Se tivesse outra vez, a mamãe tinha que entrar lá sozinha. (Ela não cumpriu a promessa: entrou no orfanato quando foi a minha vez).
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