Eu e meu irmãozinho somos filhos da mamãe com a Tel, mas a mamãe teve um outro casamento antes e, como eu já contei, foram 7 os filhos que ela e a tia-ex criaram. A Tel também era casada com o tio-ex e teve a Julia. Se a gente contar todos somos em 10. É engraçado como as coisas se acumulam diz a mamãe, mas ao longo de trinta anos muita coisa acontece, chegam os filhos que nascem de nós, chegam os que a gente buscou, cada um com uma história e um momento e os filhos que a gente aceitou porque eram de alguém que a gente amava. A mamãe diz que muita gente sofre para administrar tudo isso e não é para menos. Acontece aos casais de homem com mulher também, então não é privilégio das mamãe com mamãe ou dos papai com papai. Para a mamãe, a separação do primeiro casamento foi muito sofrida, não pela separação em si porque ela já tinha percebido muitos anos antes que não havia amor e porque não foi ela quem tomou a iniciativa, mas esse amor tinha sido amplamente substituído pelo amor dos filhos e eles escolheram ficar com a tia-ex. Também não foi culpa deles. Os mais velhos eram filhos biológicos da tia. Os seguintes foram sendo adotados e como era a mamãe quem trabalhava e a tia-ex quem ficava em casa, embora eles tenham sido legalmente adotados pela mamãe, eles chamavam a tia-ex de mãe e para eles a mamãe era ela. Quando a mamãe adotou pela primeira vez foi uma menina que já veio com três anos de idade. Chegando a casa delas, a meninazinha, minha meia-irmã Né que hoje tem quase 29 anos, vendo que os dois mais velhos chamavam a tia-ex de mamãe, naquele mesmo dia também resolveu chamar ela assim. A mamãe aceitou porque como tirar de uma criança abandonada a mãe que ela mesma tinha acabado de escolher? Mas durante muitos anos, a mamãe se ressentia por nunca ter sido chamada de mãe. Mesmo porque era ela quem adotava e queria de fato adotar e era, digamos assim, o elemento feminino do casal. Isso acabou com a chegada do meu irmãozinho. Hoje são tantos mamãe, mamãe, mamãe o dia inteiro que ela gostaria de ganhar 50 centavos por cada um deles assim não precisaria mais trabalhar. Tudo que a gente quer a gente consegue em algum momento, mamãe sempre diz, por isso é preciso cuidado com que a gente pede porque a gente recebe. No ano em que a mamãe se separou ela conheceu a Tel que então terminou seu casamento com o tio-ex e ficou com a Júlia e a mamãe. A Júlia tinha só onze aninhos. A mamãe amou a Júlia. Na sua solidão, ela colocou a Júlia no lugar de todos os filhos que ela perdera, porque para a mamãe, ser mãe é estar presente, é olhar as lições de casa, é dizer boa-noite antes de dormir e isso ela não podia mais ter. Amava tanto a Júlia que se sentia culpada em relação aos outros. Porque a Júlia era a filha dos seus sonhos: uma menina linda, inteligente, estudiosa, tranqüila, tudo o que ela sonhara numa criança. E também porque a Julia adora ler, uma coisa que a mamãe ama de paixão e sempre ficou triste porque nenhum dos meus irmãos até agora parece gostar. Na cabeça da mamãe desfilam muitas cenas, cenas doces, verdadeiras cenas de mãe e filha. Nos primeiros anos foi um sonho. A Júlia vivia pendurada na mamãe. Todo mundo dizia que ela parecia mais filha da mamãe que da Tel. Iam assistir palestras no centro espírita e a menina ficava abraçada com ela. Mamãe se lembra de pentear os longos e lisos cabelos castanhos da Júlia. Se lembra de vagar pela cozinha tentando imaginar uma surpresa para a Júlia que ia chegar da escola. Se lembra de cartõezinhos enfeitados com canetinhas coloridas onde uma menina lhe dizia que a amava. Se lembra de saírem às compras, de tomarem lanche em mesinhas de cafés na calçada, se lembra de uma meninazinha dormindo em sua cama de casal entre ela e a Tel. Se lembra até mesmo de que a Tel às vezes tinha ciúmes das atenções que a mamãe dava à sua própria filha. Júlia sabia que elas eram um casal, achava tudo natural, riu mesmo quando soube do escândalo que a vovó Loy fez ao saber. Participou até da Parada Gay. Mas hoje, para a mamãe, essas lembranças são muito tristes. Porque, incompreensivelmente, passados dois anos destas doces cenas, certo dia, após voltar de uma viagem com seus avós e tios a Júlia voltou diferente. Elas tinham preparado um jantar especial para recebê-la, pois ela tinha passado 15 dias fora. À mesa, carinhosamente perguntada sobre as férias, respondia com monossílabos que acabaram tão malcriados que num raro momento da sua relação de mãe e filha com a Júlia, a Tel que nunca chama a atenção da filha, a repreendeu. Mamãe ficou chocada. Ficou muda e fez sinal à Tel para não continuar. Era o começo de um calvário que se estenderia por anos e faria a mamãe chorar muito e que ainda não acabou. No meu próximo post vou contar um pouco mais dessa estória porque eu acho que muita gente vai se sentir acompanhada (e talvez consolada) em seu sofrimento. English version will follow.
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